O cuidado com a medicalização de problemas infantis

Por Juliane Oliveira

Discutir o processo de apropriação, pelo campo médico, de problemas de comportamento na infância, especialmente aqueles que têm reflexo no ambiente escolar. Essa foi a premissa de Rossano Cabral Lima, psiquiatra de crianças e adolescentes e professor do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), durante a palestra “Medicalização de problemas infantis”, no 2º dia do Congresso Rio de Educação 2015, em 8 de agosto.

Rossano explicou o conceito amplo de medicalização, que significa o processo pelo qual fenômenos sociais ou subjetivos passam a ser descritos em linguagem médica e encarados como quadros patológicos, tornando-se passíveis de abordagens terapêuticas. “Precisamos nos perguntar quais são os motores da medicalização, ou seja, o que coloca esse conceito para funcionar”, destacou.

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O psiquiatra destacou os motores da medicalização e criticou o excesso de diagnósticos criados – Foto: Bruno Fabregas

O psiquiatra apontou fatores que impulsionam esse processo, como o prestígio, o poder e a autoridade do saber médico; e a indústria da farmacologia, que virou um interesse não só de saúde, mas uma questão de mercado para transformar pacientes em consumidores. Mas ele alerta que os cidadãos e as famílias não são alvos passivos de um complô médico-farmacêutico. “As famílias têm um papel ativo no processo de medicalização. No caso específico de crianças e adolescentes, há uma demanda crescente e uma forte adesão dos pais que procuram o diagnóstico como primeira explicação e o remédio como única resposta para algum problema de comportamento”.

De acordo com Rossano, a integração do campo da educação e da saúde mental é fundamental para que o bem-estar das crianças e dos adolescentes possa avançar. “A escola pode ser um elemento ativo nesse processo. Não podemos desprezar fatores relacionais ou pedagógicos ligados aos problemas das crianças e simplesmente privilegiar o diagnóstico psiquiátrico e a intervenção farmacológica”.

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Rossano Lima questionou ainda se o problema está no crescente número de crianças diagnosticadas ou nos critérios desses diagnósticos – Foto: Bruno Fabregas

Sobre o crescente número de crianças, cada vez mais novas, diagnosticadas com transtornos, como por exemplo, Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), o psiquiatra indagou: “Qual o ganho de descrever um comportamento ‘disfuncional’ de uma criança como um transtorno psiquiátrico ao invés de analisar sob outros pontos de vista primeiro? Precisamos inverter essa lógica”, disse ele.

Como provocação final, Rossano alertou que se pensarmos em uma criança que não tenha nenhum comportamento expresso nesses transtornos – estar atento a todos os detalhes e nunca adotar comportamento incomodativo, por exemplo – essa seria uma criança que não existe. “O problema está em todas as crianças que são diagnosticadas, às vezes, com mais de um transtorno, ou em nós adultos que sobrepomos esses diagnósticos? Estamos homogeneizando situações muito heterogêneas. O mesmo fenômeno pode ter leituras, causas e contextos diferentes e perdemos isso quando enxergamos os diagnósticos antes de enxergar a singularidade de cada criança”, ressaltou.

Confira abaixo o vídeo que fizemos com Rossano Cabral Lima no 10º Congresso Rio de Educação, com exclusividade para você:

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