Problemas e oportunidades para o ensino privado na próxima década

Por Cláudio Ferme

O que apontam os indicadores de qualidade da educação brasileira e qual a leitura que os gestores privados deveriam fazer sobre o futuro e os rumos da escola particular na próxima década? Essas inquietantes questões foram abordadas pelo professor titular da Unespar (Universidade Estadual Paranaense) e pesquisador Geraldo Peçanha de Almeida na palestra “A gestão escolar na prática”, em que demonstrou a diminuição das diferenças de desempenho entre os alunos das escolas públicas e privadas e alertou os empreendedores para a necessidade de construção de territórios educativos de longo prazo. A palestra fez parte da programação do 2º dia do Congresso Rio de Educação 2015, no dia 8 de agosto.

Os dados do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e os resultados do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) nas mais recentes avaliações da educação nacional apontam uma crescente retração do número de matrículas no setor privado e taxas reduzidas de permanência do aluno durante seu percurso escolar na mesma instituição, ao contrário do que se verifica nas escolas públicas. Segundo Geraldo Peçanha, tal realidade evidencia que só é possível começar um projeto de escola privada se forem entendidos esses resultados. Ele advertiu que nos próximos dez anos as instituições particulares poderão ter perdas maiores nas matrículas do Ensino Fundamental caso não se reformulem e diversifiquem sua atuação na sociedade.

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Geraldo alertou os empreendedores para a necessidade de construção de territórios educativos de longo prazo – Foto: Bruno Fabregas

Apoiado nas conclusões de estudo da FGV (Fundação Getúlio Vargas), que indica as perspectivas para a educação brasileira em 2020, o professor da Unespar apontou várias medidas que poderiam ajudar as escolas privadas a reverterem o sombrio quadro futuro: construir territórios educativos; implantar a educação não cognitiva; formar e cuidar do corpo docente; elevar o índice de credibilidade e a permanência do aluno na escola; melhorar a qualidade objetiva dos conteúdos; e criar e manter escolas de formação interna. Para isso, gestores e diretores terão de encontrar, em conjunto, soluções que estanquem a perda de alunos para a rede pública.

De forma objetiva, Geraldo acredita que as modalidades Creche e Ensino Médio são as duas grandes possibilidades de crescimento do setor privado na próxima década. O foco na expansão de matrículas na Creche seria estratégico, pois esse segmento conheceu um incremento de 79,6% do número de alunos entre 2005 e 2012, e espera-se que cresça em torno de 112% até 2020 – o que também poderia aumentar o índice de permanência do aluno na mesma instituição até o fim da formação escolar. Hoje, das dez melhores escolas privadas no ranking do Enem, sete têm apenas 20% de alunos formados desde a infância, contra índice entre 80% e 100% nas 20 melhores escolas públicas.

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Palestra destacou medidas que podem ajudar as escolas privadas a reverter o quadro de perder alunos para a rede pública – Foto: Bruno Fabregas

De acordo com o pesquisador, o aumento de investimentos do Governo Federal por aluno no Ensino Médio, da ordem de 273% entre 2003-2013, representa outro nicho de oportunidade para o setor privado. O Plano Nacional de Educação prevê que o percentual do PIB gasto com educação passe dos atuais 6,6% para 10% em 2024. Embora tenha havido uma grande migração de alunos para o setor público nos últimos anos, o Ensino Médio da rede pública permanece sendo uma falência, mesmo com o aumento da qualidade verificada pelos resultados do Enem. “O planejamento baseado nessa demanda crescente e na construção do território educativo para além dos estreitos limites atuais podem determinar uma virada em favor do setor privado na atração de novos alunos”, ressaltou.

A análise dos resultados recentes do Enem levou o professor Geraldo Peçanha a formular alguns alertas aos gestores da educação privada. Além da perda de matrículas e do baixo índice de permanência, verificou-se uma equiparação de desempenho entre as melhores escolas privadas e a média das escolas públicas. Até mesmo profundas diferenças socioeconômicas e baixa formação escolar dos pais não impediram que os alunos da rede pública tivessem, relativamente, desempenho melhor do que os estudantes de escolas mais ricas, sobretudo na prova de redação.

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