Competências para ensinar e para organizar o ensino

Por Juliane Oliveira

“A tarefa do professor não é dar aula. A tarefa do professor é construir identidades humanas, gerir sonhos, fundar mundos. Nunca uma geração precisou tanto de professores como essa que necessita formar valores”. A mensagem de reflexão, que impulsiona os profissionais da educação a pensar a organização do ensino numa perspectiva desafiadora é de Emília Cipriano, doutora em Educação e professora da PUC/SP, no 10º Congresso Rio de Educação 2015, no dia 8 de agosto.

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Emília Cipriano ressaltou a importância do papel do professor na educação – Foto: Bruno Fabregas

Na palestra “Reflexões sobre as competências para o ensinar e para a organização do ensino”, a professora falou sobre a importância do respeito à singularidade do aluno. “Precisamos tratar questões específicas em âmbitos específicos. Precisamos ser um ‘ponto de luz’ na vida dos alunos. Assim, fazemos nascer, muitas vezes, um ser que nem ele próprio sabia que existia”, afirmou.

A professora destacou a importância de valorizar o professor da Educação Infantil, que se eterniza na memória das pessoas e cuida da infância, o menor período da vida, mas o que mais forma valores e princípios. “Quem não sabe habitar a Educação Infantil não pode ser professor. A educação só vai mudar quando as universidades, os doutores e pós-doutores souberem valorizar esses professores”.

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Mensagem de reflexão motivou os profissionais da educação a pensar a organização do ensino numa perspectiva desafiadora – Foto: Bruno Fabregas

Outro ponto abordado por Emília foi a necessidade de romper com tudo que é padronização e que o currículo deve abranger a ideia de interdisciplinaridade que o cérebro tem. Ela lembrou que na sala de aula não é só o conteúdo que motiva o aluno. As formas usadas para isso também são fundamentais, já que o ensino deve fornecer situações que possibilitem a formação de novas categorias de pensamento e conceitos, a partir de experiências e informações levadas pelo professor.

Para Emília, trabalhar com princípios consistentes em sala de aula promove unidade. Ela destacou seis princípios que considera fundamentais: diálogo, inclusão, humanização, participação, solidariedade e democracia. “A tarefa do professor é levar outra leitura de mundo. Cabe ao educador construir no educando uma relação de curiosidade, de indagação do saber e de consolidação das formas de aprendizagem. O educador encantado encanta. Ele tem um papel de referência”, ressaltou.

Confira abaixo o vídeo que fizemos com Emília Cipriano no 10º Congresso Rio de Educação, com exclusividade para você:

O desafio dos novos caminhos para educar e aprender

Por Juliane Oliveira

“O medo é o grande inibidor da aprendizagem. Quando você tem muito medo você se defende mais do que ousa. O professor precisa ousar mais, sair do medo e avançar”. Essa foi a mensagem desafiadora de José Moran, doutor em Comunicação pela USP, no Congresso Rio de Educação 2015, no dia 8 de agosto.

Ao falar sobre o tema “Novos modelos de ensinar e aprender hoje”, o professor mostrou algumas experiências de escolas inovadoras com currículo mais flexível, com ênfase em metodologias ativas, tempos de aprendizagem individual e aprendizagem por desafios em grupo. Segundo ele, esse modelo equilibra o conhecimento intelectual, os valores humanos e os projetos de vida de cada aluno, com apoio das tecnologias digitais.

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Para José Moran, o medo é o grande inibidor da aprendizagem, que impede de ousar e avançar – Foto: Bruno Fabregas

“Buscar o caminho único, o passo a passo que estava entranhado na cultura escolar, é complicado em um período em que as coisas estão complexas e rápidas. Precisamos de uma aprendizagem ampla. A maior parte das pessoas sai da escola sem aprender o principal: construir um projeto de vida realizador, ser uma pessoa livre, ter paz e equilíbrio. É isso que precisamos passar para os alunos”, destacou.

Moran criticou a situação da educação na escola que fala muito sobre tecnologia, mas ainda não soube se reinventar. “Precisamos sair de uma visão fixa e previsível para outra dinâmica, aberta a novas informações, pessoas e situações. A escola hoje ainda é muito fixa e previsível. É necessário sair da caixinha da resposta única. Precisamos diminuir os medos, aceitar os erros como parte necessária do processo de evoluir e inovar”.

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Público conheceu propostas sobre novos modelos de ensinar e aprender – Foto: Bruno Fabregas

O professor apontou como urgente a necessidade de inverter a forma tradicional de ensinar. Ele contou sobre sua experiência de ouvir seus alunos para mudar a forma que ensinava e aprender mais sobre o papel do digital na aprendizagem, função que começou a desempenhar há 25 anos. “Projetávamos naquele momento uma escola diferente, totalmente centralizada no aluno. Vinte e cinco anos se passaram e até hoje só falamos, mas não fazemos. A tecnologia está aí, todo mundo está conectado, mas nós continuamos discutindo o assunto e não mudamos nada. O educador, apesar de ser especialista em aprendizagem, não aprende tudo que pode. Ele tem medo de aprender muito. Teme que isso lhe cobre mudanças profundas”, alertou.

Para Moran, o papel do professor hoje não é explicar o básico, pois isso o aluno aprende sozinho. Ele pesquisa e já chega na sala de aula sabendo. O papel do professor é ensinar o avançado, ampliar sua função e ser orientador, mentor e designer de roteiros pessoais e grupais de aprendizagem, de projetos profissionais e de vida para seus alunos.

Dentre alguns caminhos propostos por ele, está a Educação Híbrida, que consiste em integrar as diferentes áreas do conhecimento, os conteúdos e sua abrangência – intelectual, emocional e comportamental -, para ensinar e aprender; além de currículos interdisciplinares, flexíveis e integradores, que tenham como eixo transversal e fundamental o projeto de vida.  “Não vamos revirar a educação, mas se cada um fizer uma ação pequena diferente, com experimentações em vários campos, teremos uma mudança na rotina das escolas e, consequentemente, na vida dos alunos”, ressaltou.

Confira abaixo o vídeo que fizemos com José Moran no 10º Congresso Rio de Educação, com exclusividade para você.

Também temos uma entrevista exclusiva com ele sobre Educação Híbrida no site do Sinepe Rio. Confira aqui. 

Problemas e oportunidades para o ensino privado na próxima década

Por Cláudio Ferme

O que apontam os indicadores de qualidade da educação brasileira e qual a leitura que os gestores privados deveriam fazer sobre o futuro e os rumos da escola particular na próxima década? Essas inquietantes questões foram abordadas pelo professor titular da Unespar (Universidade Estadual Paranaense) e pesquisador Geraldo Peçanha de Almeida na palestra “A gestão escolar na prática”, em que demonstrou a diminuição das diferenças de desempenho entre os alunos das escolas públicas e privadas e alertou os empreendedores para a necessidade de construção de territórios educativos de longo prazo. A palestra fez parte da programação do 2º dia do Congresso Rio de Educação 2015, no dia 8 de agosto.

Os dados do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e os resultados do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) nas mais recentes avaliações da educação nacional apontam uma crescente retração do número de matrículas no setor privado e taxas reduzidas de permanência do aluno durante seu percurso escolar na mesma instituição, ao contrário do que se verifica nas escolas públicas. Segundo Geraldo Peçanha, tal realidade evidencia que só é possível começar um projeto de escola privada se forem entendidos esses resultados. Ele advertiu que nos próximos dez anos as instituições particulares poderão ter perdas maiores nas matrículas do Ensino Fundamental caso não se reformulem e diversifiquem sua atuação na sociedade.

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Geraldo alertou os empreendedores para a necessidade de construção de territórios educativos de longo prazo – Foto: Bruno Fabregas

Apoiado nas conclusões de estudo da FGV (Fundação Getúlio Vargas), que indica as perspectivas para a educação brasileira em 2020, o professor da Unespar apontou várias medidas que poderiam ajudar as escolas privadas a reverterem o sombrio quadro futuro: construir territórios educativos; implantar a educação não cognitiva; formar e cuidar do corpo docente; elevar o índice de credibilidade e a permanência do aluno na escola; melhorar a qualidade objetiva dos conteúdos; e criar e manter escolas de formação interna. Para isso, gestores e diretores terão de encontrar, em conjunto, soluções que estanquem a perda de alunos para a rede pública.

De forma objetiva, Geraldo acredita que as modalidades Creche e Ensino Médio são as duas grandes possibilidades de crescimento do setor privado na próxima década. O foco na expansão de matrículas na Creche seria estratégico, pois esse segmento conheceu um incremento de 79,6% do número de alunos entre 2005 e 2012, e espera-se que cresça em torno de 112% até 2020 – o que também poderia aumentar o índice de permanência do aluno na mesma instituição até o fim da formação escolar. Hoje, das dez melhores escolas privadas no ranking do Enem, sete têm apenas 20% de alunos formados desde a infância, contra índice entre 80% e 100% nas 20 melhores escolas públicas.

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Palestra destacou medidas que podem ajudar as escolas privadas a reverter o quadro de perder alunos para a rede pública – Foto: Bruno Fabregas

De acordo com o pesquisador, o aumento de investimentos do Governo Federal por aluno no Ensino Médio, da ordem de 273% entre 2003-2013, representa outro nicho de oportunidade para o setor privado. O Plano Nacional de Educação prevê que o percentual do PIB gasto com educação passe dos atuais 6,6% para 10% em 2024. Embora tenha havido uma grande migração de alunos para o setor público nos últimos anos, o Ensino Médio da rede pública permanece sendo uma falência, mesmo com o aumento da qualidade verificada pelos resultados do Enem. “O planejamento baseado nessa demanda crescente e na construção do território educativo para além dos estreitos limites atuais podem determinar uma virada em favor do setor privado na atração de novos alunos”, ressaltou.

A análise dos resultados recentes do Enem levou o professor Geraldo Peçanha a formular alguns alertas aos gestores da educação privada. Além da perda de matrículas e do baixo índice de permanência, verificou-se uma equiparação de desempenho entre as melhores escolas privadas e a média das escolas públicas. Até mesmo profundas diferenças socioeconômicas e baixa formação escolar dos pais não impediram que os alunos da rede pública tivessem, relativamente, desempenho melhor do que os estudantes de escolas mais ricas, sobretudo na prova de redação.

Aprender brincando

Por Andréa Antunes

Mudar a compreensão do que é brincadeira, mostrar aos pais que brincar é coisa séria e que a brincadeira deve ser estimulada é o desafio que se coloca para os educadores contemporâneos, imersos em uma sociedade marcada pela competitividade e onde a agenda das crianças é preenchida com atividades direcionadas para o desenvolvimento.

“Vivemos em uma sociedade de metas e a ideia das metas é tirar o máximo de cada pessoa para atingir objetivos inalcançáveis. Isso faz com que as pessoas fiquem cada vez mais ansiosas e estressadas. Hoje, há uma exacerbação do individualismo que leva ao distanciamento do outro”, alertou Carlos Alberto de Mattos Ferreira, doutor em Saúde, em sua palestra no Congresso Rio de Educação 2015.

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Carlos Alberto falou sobre a importância da brincadeira no processo de desenvolvimento e aprendizado – Foto: Bruno Fabregas

Ao falar sobre tema “A Importância do brincar na escola”, o especialista, que é psicólogo, psicanalista e psicomotricista, lembrou que as crianças estão divididas entre o que chamou de brincadeiras com os games (digital) e as brincadeiras livres (analógica). “As duas são importantes, mas é preciso lembrar que os jogos vêm com uma programação pronta. A criança deverá cumprir tudo o que já está predeterminado para zerar o jogo. Já na brincadeira digital livre, a programação está aberta. Cada etapa será superada de uma forma. A transformação vai depender do que ela produzir”, disse o especialista, ressaltando que brincar é a mais alta função de desenvolvimento e aprendizagem das crianças.

Carlos Mattos lembrou ainda que os pais precisam entender a importância da brincadeira no processo de desenvolvimento e aprendizado. “A brincadeira é vista como perda de tempo. Os pais falam que a criança vai para escola brincar, como se a brincadeira fosse algo desprezível. O momento livre é desprezado. Há uma compulsão para que todo o tempo seja preenchido com atividades acadêmicas e isso é um erro. É na brincadeira que ela desenvolve sua subjetividade”, afirmou.

O especialista também chamou atenção para os efeitos da sociedade sobre as crianças. “Elas vivem com a atenção dividida em inúmeros focos e são educadas e estimuladas em um processo de educação pulverizada que é consequência da sociedade de hoje, onde há muita informação em velocidade”, destacou.

A importância da hierarquia do aprendizado

Por Nathalia Curvelo

Com formação em fonoaudiologia, psicopedagogia e psicomotricidade, a professora Maria Teresa Soares possui um amplo conhecimento sobre as diferentes etapas do desenvolvimento infantil.  Ela falou sobre os impactos de cada fase na constituição do indivíduo na palestra “Importância dos Primeiros Anos da Escola nos Futuros Distúrbios de Aprendizagem”, no 2º dia do Congresso Rio de Educação 2015.

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Os efeitos causados pelo negligenciamento nas etapas de formação das crianças foram debatidos na palestra de Maria Teresa – Foto: Bruno Fabregas

Maria Teresa destacou dois conceitos como fundamentais para o entendimento do tema: hierarquia e resgate. “O processo de aprendizagem é hierárquico. A tarefa da pré-escola é fazer a criança vivenciar as etapas do desenvolvimento. Se elas não forem bem trabalhadas, as falhas se manifestarão mais tarde”, explicou, ressaltando como esse entendimento é importante para o resgate de alunos que manifestam dificuldade no aprendizado. “O resgate deveria ser feito na escola, antes de chegar às clínicas. Para que isso aconteça, no entanto, os professores devem ter noção do desenvolvimento”.

A professora falou sobre os efeitos causados pelo negligenciamento nas etapas da formação das crianças. “Acontecem defasagens pedagógicas se não se respeitar o tempo certo de aprendizagem. Gera-se imaturidade cognitiva e emocional, além de alteração na autoestima e desmotivação”, disse. Maria Teresa citou ainda como se desenvolvem os sentidos nos anos iniciais da infância, além dos impactos sofridos nesse processo em virtude das mudanças na dinâmica da sociedade. “Temos os problemas do século XXI, como a guarda compartilhada, em que não se constrói uma linguagem comum para as crianças, e a rotina sobrecarregada e cronometrada”. A palestra foi realizada no dia 8 de agosto.

A educação na era de alunos hiperconectados

Por Juliane Oliveira

Como ensinar num mundo onde tudo é mágico e toda informação está a um toque no celular? Essa reflexão que permeia o ambiente escolar foi o tema central do psicanalista Paulo Sternick na palestra “Que mundo é esse? Como educar num tempo de indivíduos hiperconectados?”,  no 2º dia do Congresso Rio de Educação 2015, em 8 de agosto

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Paulo Sternick apontou a diferença entre instruir e educar num mundo de hiperconectados – Foto: Bruno Fabregas.

O psicanalista falou sobre a intensa quantidade de estímulos que recebemos e sobre o quão prejudicial isso pode ser em excesso. “No mundo de hoje recebemos muitos estímulos. Apesar deles produzirem conhecimento, também são fonte de distração para ficarmos sem foco e perdermos a memória. Isso se deve ao acúmulo enorme de textos, dados e fontes de conhecimento”, explicou.

A dificuldade de ganhar a atenção dessa geração na escola é apontada por Sternick como um problema trazido pelas diversas fontes de conhecimento e informação que descentralizaram a figura do professor. “Quando eu era aluno, tínhamos o professor como a pessoa que ia trazer o conhecimento. Construíamos nossa carreira e guiávamos nosso futuro pelo caminho que as escolas nos ajudavam a trilhar. Hoje isso mudou, porque não há mais a centralidade do processo educacional no professor”.

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O uso de recursos tecnológicos na sala de aula também foi tema do debate – Foto: Bruno Fabregas

Para o psicanalista, apesar das diversas fontes de informação, o professor continua com o seu papel fundamental intacto, porque educar e instruir são coisas diferentes. “Hoje os seres humanos estão rivalizando o tempo todo com os aparelhos tecnológicos. A instrução pode vir de outros meios, mas o educar é o trunfo do professor e da escola. Isso nunca poderá ser substituído por aparelhos eletrônicos. É dever do professor, inclusive, educar sobre os limites dessa tecnologia”, destacou.

Não é só o conteúdo disponível que atrai as crianças e adolescentes. De acordo com o psicanalista, estudos mostram que os estímulos elétricos das telas (computador, tablet, celular, etc.) são parecidos com os estímulos de drogas como, por exemplo, a Heroína. Com isso, as pessoas passam a acessar as diversas telas com frequência, além de tentar preencher com elas a falta que todo ser humano carrega em si.

A discussão em torno da tecnologia na sala de aula é algo que deve ser pensado com cautela, segundo Sternick. “A sala de aula pode ser a hora da educação, do olho no olho, da interação, para ser diferente do que se faz fora dela. Por outro lado, também devemos pensar se hoje podemos ignorar a existência desses aparelhos tecnológicos ou se é melhor usá-los como mecanismos em aula. Essa reflexão requer muito cuidado”, disse.

O dilema ético na vida cotidiana e nas relações de trabalho

Por Cláudio Ferme

A palestra “A ética do fazer pedagógico”, apresentada pelo pedagogo e escritor Hamilton Werneck, no 2º dia do Congresso Rio de Educação 2015, em 8 de agosto, ofereceu ao público a oportunidade de refletir acerca de situações cotidianas, sobretudo no âmbito das relações de trabalho, em que surgem conflitos éticos que demandam soluções equilibradas e justas. Numa época marcada por ampla inversão de valores por falta de princípios éticos, os educadores deveriam enfatizar que é preciso ensinar com a tecnologia, mas educar com a sensibilidade.

Com abordagem bem-humorada e repleta de exemplos instigantes, a explanação discutiu as diferenças entre as noções de ética e moral, e demonstrou como nossas vidas estão permeadas de situações em que nos deparamos com esses dilemas. “Mais do que uma questão semântica e de origem etimológica, trata-se da compreensão das fronteiras entre valores (ética) e regras (moral), e de que forma esses conceitos impregnam o senso comum da sociedade”, explicou o pedagogo.

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Hamilton Werneck abordou situações cotidianas das relações de trabalho em que surgem conflitos éticos – Foto: Bruno Fabregas

As atividades profissionais de gestores em educação e de professores são confrontadas diariamente com circunstâncias que desafiam suas consciências e geram conflitos de valores. Essa condição, ilustrada com o dilema de São Paulo (“Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”), expressa a frequente dúvida que aflige o ser humano em situações-limite, quando o agir ético impõe decisões nem sempre coerentes com as vontades individuais – conforme o trilema “quero, mas não posso; posso, mas não devo; devo, mas não quero”.

Do ponto de vista cultural e etimológico, as diferenças entre os termos ética e moral remontam às suas origens históricas. O vocábulo ética provém do termo grego éthos, que significava “modo de ser, valores que orientam os relacionamentos humanos, garantindo o bem-estar social.” Já o vocábulo moral origina-se do termo latino mores, cujo sentido era “conjunto de regras que regulam o comportamento humano (educação, tradição, cotidiano), e tem caráter obrigatório”. A ética é teórica; a moral, prática.

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Abordagem bem-humorada e com exemplos instigantes sobre as diferenças entre ética e moral marcaram a palestra – Foto: Bruno Fabregas

Quanto à aplicação de princípios éticos no trabalho dos empreendedores e educadores, o professor Werneck demonstrou uma série de exemplos e relatos que enfatizaram o drama interno dos responsáveis por decisões que lidam com os destinos de seres humanos (demissões, punições, sanções, etc). Essas podem ser perfeitamente racionais, mas eticamente passíveis de visões subjetivas (do ponto de vista do empregador ou da ótica do empregado).

“A falta de ética gera uma série de inversões de valores no mundo de hoje. Há todo tipo de oferecimento de soluções para os problemas da condição humana”, destacou Werneck. No campo educacional, ele alertou para os riscos éticos de se adotar uma prática pedagógica que mantém os pobres em sua condição de penúria. O professor argumentou, ainda, que as teologias do século XXI – da autoajuda, da prosperidade e do empreendedorismo – prometem resolver todos os males, mas, na realidade, explicitam a enorme carência ética do mundo moderno.

Educação como uma marca

Por Andréa Antunes

A importância de ter uma marca forte e os benefícios que isso traz para as escolas. Esses foram os principais aspectos abordados pelo especialista em planejamento, branding e comunicação, Cristiano Junqueira, em sua palestra “Educação como uma marca”, no Congresso Rio de Educação 2015, no dia 8 de agosto.

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A importância da escola ter uma marca forte foi o destaque da palestra de Cristiano Junqueira – Foto: Bruno Fabregas

O especialista explicou o que é branding (construção de marca) e sinalizou como é possível mudar a percepção que as pessoas têm de uma empresa ou de um negócio. “Isso pode acontecer através da valorização de algumas características. É preciso destacar aquilo em que somos bons”, disse, ressaltando que uma marca forte é aquela que cria experiências positivas na mente das pessoas.

De acordo com Cristiano, o branding pode ser um aliado ao ajudar a consolidar a marca através de uma readequação administrativa.  Em sua palestra, ele apontou alguns aspectos de organização do branding: define uma visão de futuro; define e dissemina um posicionamento; molda uma cultura organizacional; envolve e reenergiza a equipe; guia decisões práticas em todos os níveis.

O especialista disse ainda que as instituições de ensino podem se apropriar dessa metodologia para fortalecer o seu posicionamento no mercado. “O  branding pode ser aplicado em escolas, mas para isso é necessário que elas identifiquem o seu aspecto forte e elaborem estratégias para trabalhar a partir desse diferencial”.

Conhecimento a serviço do desenvolvimento

Por Nathalia Curvelo

Os países que desejam prosperar e se tornarem uma potência devem investir nos indivíduos que possuem alta capacidade de acúmulo de conhecimento. A ideia é defendida pela professora Maria Clara Sodré, que conduziu a palestra “Alunos superdotados: riqueza ou problema?”, realizada no 2º dia do Congresso Rio de Educação, em 8 de agosto.

A palestrante fez um retrospecto histórico, explicando o que era valorizado e como funcionava a dinâmica das Eras Agrícola e Industrial, até chegar aos tempos modernos. De acordo com ela, vivemos ao mesmo tempo na Era da Informação e na Era do Conhecimento.

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“Os cursos de formação para professor dão pouca informação sobre o que é o superdotado”, criticou Maria Clara – Foto: Bruno Fabregas

Enquanto a primeira se caracteriza pelo protagonismo da informação rápida e de fácil alcance, a segunda é marcada pela valorização do conhecimento. “A informação está na ponta dos dedos a qualquer momento. Mas sem conhecimento ela é inútil”, afirmou.

Maria Clara explicou que os superdotados são aqueles que possuem uma aptidão fora do comum para absorver conhecimento. “Superdotados são, por definição, mais dotados da habilidade de pensar. A superdotação é a capacidade maior de fazer conexões, de pensar criticamente”, explicou.

A professora falou ainda sobre os países que tiveram saltos de desenvolvimento por valorizarem pessoas superdotadas, como a China e a Coreia do Sul. No Brasil, ainda há um longo caminho a percorrer. “Os cursos de formação para professor dão pouca informação sobre o que é o superdotado e como diferenciar a educação para esse aluno”.

A palestra também abordou os mitos e preconceitos existentes sobre os indivíduos com superdotação e os principais erros cometidos na abordagem escolar de alunos com esse perfil. Por fim, Maria Clara comentou sobre o projeto que desenvolve para encontrar estudantes superdotados na rede pública municipal de ensino, o Programa Estrela Dalva, realizado desde 2007. “Noventa por cento deles são aprovados nas escolas de excelência”, garantiu.

O cuidado com a medicalização de problemas infantis

Por Juliane Oliveira

Discutir o processo de apropriação, pelo campo médico, de problemas de comportamento na infância, especialmente aqueles que têm reflexo no ambiente escolar. Essa foi a premissa de Rossano Cabral Lima, psiquiatra de crianças e adolescentes e professor do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), durante a palestra “Medicalização de problemas infantis”, no 2º dia do Congresso Rio de Educação 2015, em 8 de agosto.

Rossano explicou o conceito amplo de medicalização, que significa o processo pelo qual fenômenos sociais ou subjetivos passam a ser descritos em linguagem médica e encarados como quadros patológicos, tornando-se passíveis de abordagens terapêuticas. “Precisamos nos perguntar quais são os motores da medicalização, ou seja, o que coloca esse conceito para funcionar”, destacou.

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O psiquiatra destacou os motores da medicalização e criticou o excesso de diagnósticos criados – Foto: Bruno Fabregas

O psiquiatra apontou fatores que impulsionam esse processo, como o prestígio, o poder e a autoridade do saber médico; e a indústria da farmacologia, que virou um interesse não só de saúde, mas uma questão de mercado para transformar pacientes em consumidores. Mas ele alerta que os cidadãos e as famílias não são alvos passivos de um complô médico-farmacêutico. “As famílias têm um papel ativo no processo de medicalização. No caso específico de crianças e adolescentes, há uma demanda crescente e uma forte adesão dos pais que procuram o diagnóstico como primeira explicação e o remédio como única resposta para algum problema de comportamento”.

De acordo com Rossano, a integração do campo da educação e da saúde mental é fundamental para que o bem-estar das crianças e dos adolescentes possa avançar. “A escola pode ser um elemento ativo nesse processo. Não podemos desprezar fatores relacionais ou pedagógicos ligados aos problemas das crianças e simplesmente privilegiar o diagnóstico psiquiátrico e a intervenção farmacológica”.

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Rossano Lima questionou ainda se o problema está no crescente número de crianças diagnosticadas ou nos critérios desses diagnósticos – Foto: Bruno Fabregas

Sobre o crescente número de crianças, cada vez mais novas, diagnosticadas com transtornos, como por exemplo, Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), o psiquiatra indagou: “Qual o ganho de descrever um comportamento ‘disfuncional’ de uma criança como um transtorno psiquiátrico ao invés de analisar sob outros pontos de vista primeiro? Precisamos inverter essa lógica”, disse ele.

Como provocação final, Rossano alertou que se pensarmos em uma criança que não tenha nenhum comportamento expresso nesses transtornos – estar atento a todos os detalhes e nunca adotar comportamento incomodativo, por exemplo – essa seria uma criança que não existe. “O problema está em todas as crianças que são diagnosticadas, às vezes, com mais de um transtorno, ou em nós adultos que sobrepomos esses diagnósticos? Estamos homogeneizando situações muito heterogêneas. O mesmo fenômeno pode ter leituras, causas e contextos diferentes e perdemos isso quando enxergamos os diagnósticos antes de enxergar a singularidade de cada criança”, ressaltou.

Confira abaixo o vídeo que fizemos com Rossano Cabral Lima no 10º Congresso Rio de Educação, com exclusividade para você: